Quando o assunto é a castração de seus animais, Homens e mulheres se dividem


Quando o assunto é a castração de seus animais, Homens e mulheres se dividem
Rodrigo Marcondes/Folha Imagem

O rotweiller Urso, que atua como cão de guarda e não será castrado

o meu (pet) não!

por Cíntia Marcucci

Se você fala em castrar o meu cão, fala em me castrar também, pois é assim que eu me sinto.” Foi com essa frase -só que com termos um pouco mais diretos- que o dono de um buldogue mal-educado e, diga-se, tarado, se justificou contra a castração do animal em um dos episódios do reality show inglês “Ou Eu ou o Cachorro”, transmitido no Brasil pelo canal GNT (terça-feira, 21h30).

O programa, em que os cães e seus donos são reeducados, é apresentado pela adestradora Victoria Stilwell, que, em entrevista à Revista, defende a medida radical (leia à pág. 32).

Falar em castração de animais incomoda sobretudo os homens. “Parece que é comigo. Eu não acho justo, ele pode conhecer alguém, ter um filhotinho um dia. é maltratar o animal. Não é o curso natural das coisas”, acha o produtor Rogério Furtado, 47, dono de Toy, um akita de sete anos que nunca cruzou ou teve uma namorada.

Quem não compartilha da idéia é sua mulher, a paisagista Natália Ferreira, 40. “Acho mais saudável que ele seja castrado”, diz ela. “Ele não vai cruzar mesmo.” Ela é categórica quanto à vida reprodutiva do pet e não imagina uma ninhada de akitas pela casa.

Demarcar território
A discordância entre Natália e Rogério é mais corriqueira do que se imagina. “É muito comum ver homens que não querem castrar seus cães. As mulheres são bem mais tranqüilas com a questão”, diz o adestrador Alexandre Rossi. O especialista explica que um cão castrado é mais fácil de adestrar. “A personalidade e as características do animal não mudam, mas ele acaba seguindo ordens sem tantos desvios de atenção.”

Segundo o adestrador, é por isso que todos os cães-guia para cegos são castrados. Caso contrário, sairiam correndo atrás de uma fêmea no cio ou parariam a cada poste para demarcar território.

Os argumentos não convencem o contador Sérgio Scarpiones, 43, que sofreu ao ter de castrar dois de seus cinco cães por questões de saúde. Mas não admite a possibilidade de castrar Urso, um rottweiller de 12 anos que atua como cão de guarda. “A castração deixa o cão apático, abobalhado. Muda demais, deixa o animal até um pouco efeminado”, afirma. “É uma sacanagem, pois ele não pode opinar.”

A rottweiller do casal, Bebel, 5, não vai escapar da cirurgia, mesmo contra a vontade de Sérgio, já que sofre de gravidez psicológica com muita freqüência. “Todo cio dela é complicado”, explica a mulher de Sérgio, a advogada Naila Khuri, 38, ao lembrar que precisa deixar a cadela presa, enquanto os machos uivam. “Seria mais fácil se fossem todos castrados.”

Naila não pouparia nem Urso. “Ele já desenvolveu o instinto de guarda. Não mudaria nada se fosse castrado”, opina Naila, em oposição ao marido.

Segundo a veterinária e professora da Faculdade de Medicina Veterinária da USP, Clair Motos de Oliveira, Naila tem razão: “O cão castrado não perde a função de guarda se ele já for treinado. Ao contrário das fêmeas, os machos da espécie canina têm instinto desenvolvido antes do nascimento”.

Bicho inteiro
Na casa do psicólogo Cristiano Liveraro, 34, e de sua mulher, a empresária Luciana, 27, vivem uma cadela dogo argentina e oito gatos, entre fêmeas e machos. Só um gatinho macho não é castrado.

“Antes do Vitão aparecer, outros gatos da rua invadiam a nossa casa e faziam uma zona porque ninguém defendia o território. Isso parou desde que ele surgiu e é por isso que eu não acho uma vantagem castrá-lo”, conta Liveraro, que não é contra a castração em si, mas vê as vantagens de ter um bicho “inteiro” (no jargão veterinário) em casa.

Já Luciana odeia ver seu pet voltando para casa todo estropiado depois de brigar com outros gatos pela mesma fêmea no cio. “A grande diferença com que homens e mulheres enxergam a questão é que nós pensamos com o instinto materno, de querer protegê-los de brigas e doenças, enquanto os homens talvez façam uma transferência de seu instinto de continuidade da espécie.”

castração

prós

1. Diminui os riscos de câncer de próstata, mamas e piometra (infecção uterina)

2. Reduz o risco de doenças sexualmente transmissíveis (já que a atividade sexual se torna rara)

3. Deve ser feita em cães jovens para ser eficaz na prevenção de doenças, especialmente em fêmeas

4. É uma medida de controle populacional de cães e gatos (uma outra alternativa é a vasectomia em machos, mas que não tem os benefícios de prevenção de doenças)

5. Restringe brigas com outros animais

contras

1. Pode fazer o animal engordar, dependendo de sua tendência natural

2. Não é método de adestramento e, sozinho, não serve para acalmar o cão ou torná-lo mais obediente

3. Animais castrados podem continuar subindo na perna das pessoas para chamar atenção, mas não por desejo sexual

4. Se for só por conveniência, não é aconselhável para cães idosos

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